Tuesday, April 25, 2006

Cumprir Abril é, efectivamente, um compromisso para a inclusão social



«E a exclusão – a dimensão de não pertença a que demasiados dos nossos concidadãos se vêem remetidos – é tão intolerável que, por contraste, têm de ser reduzidas à sua devida proporção as controvérsias geradas a propósito de pequenos aperfeiçoamentos dos nossos direitos. Falo dos direitos dos que não são excluídos e das controvérsias em que demasiadas vezes a discussão política se esgota e a atenção da opinião pública se exaure. Esse é um peso que temos de ter presente na nossa consciência colectiva – mas também na consciência de cada um. O que de mais nobre e mais perene a História deste dia nos deixou, e que queremos legar às novas gerações, é a ambição de um País mais livre, mas também de uma sociedade mais justa.»

Ao romper com a emotividade e o sobressalto mediáticos, que os antecessores tanto acarinhavam nos seus discursos evocativos da revolução de Abril, o Presidente da República demonstrou, à evidência, como está caduco o nosso sistema político, estruturado sobre estes partidos, cuja matriz ideológica engordou, ou feneceu, e conduzido pela batuta crescentemente frenética e ditatorial dos media. Hoje, as reacções dos líderes partidários bastariam, para se aquilatar da incomodidade que o extraordinário discurso do Presidente lhes deixou, a todos, confrontados que foram com o acessório em que tanto se afadigam em esgotar a sua intervenção política. A repentina, satisfeita e exultante colagem do Primeiro-Ministro às linhas mestras da intervenção do Presidente demonstraram como José Sócrates não é capaz de ultrapassar o imediatismo eleitoralista e loquaz da propaganda do governo. Pouco mais de um mês sobre a sua tomada de posse, o Presidente da República , sem ser necessário referir-se, quer à acção do governo, quer às fragilidades do Parlamento, mostrou-nos o verdadeiro caminho de Abril. Pena, que tão poucos o tenham querido perceber.

9 comments:

henrique santos said...

Como anda esquisito este nosso País. Homens de direita a fazerem discursos de esquerda. Gente dita de esquerda a praticar políticas de direita em nome da esquerda. Intelectuais queridos dos média a repetirem, à saciedade, que a distinção esquerda/direita já não faz sentido. só faltava, neste seu blog caro Crack, vê-lo a classificar o discurso do nosso Presidente de extraordinário. Julgava-o mais exigente, ou foi uma concessão emocional?

Anonymous said...

O discurso foi curtinho, e saiu meio frouxo. O Sócrates, nem queria acreditar na sorte de não ter levado o raspanete em público.

crack said...

Caro Henrique Santos, este blog é pouco dado a concessões emocionais relativamente a estranhos ao círculo de amigos e familiares.Logo, o que escrevi resultou de admiração, mesmo, pelo nível do discurso do Presidente Cavaco. Extraordinário, a todos os títulos porque: rompe com a repetição exaustiva dos esquemas enfermos do passado;surpreendeu pelo registo profundamente humanista; demonstra conhecimento profundo do país real e não se acanha a verbalizar, da forma mais correcta, uma genuína preocupação com os que mais precisam; não cede à agenda "factóide" dos media e propagandística do governo; consegue pôr em causa, quer o parlamentarismo bafiento, quer o eleitoralismo bacoco do governo, apenas por comparação, nunca pela exposição do confronto.
Notável, tanto que o velho discurso esquerda/direita se torna ridículo, por passadista.

crack said...

Caro Luís, discordo. O discurso foi curto, mas incisivo e perturbante, pela singeleza do texto e da mensagem, face à complexidade e importância do problema.
Quanto ao raspanete ao Sócrates, fica reservado, como deve ser, para as reuniões semanais. Só que o nosso Primeiro, ou não percebeu, ou percebeu e quis aturdir-nos com aquela exagerada sintonia. Pode ter convencido uns quantos, mas não convenceu todos. Foi triste.

Pinho Cardão said...

Caro Crack:
Excelente e oportuna Nota, a sua.
De facto,foi um extraordinário discurso, curto, mas incisivo, e deixou uma mensagem que não esquece.
De facto, aAnalisar o discurso sob o ponto de vista do tipo "um discurso de esquerda de um homem de direita" ou " um discurso de direita de um homem de esquerda" é querer esquecer o fundamental e julgar as propostas e as políticas como boas, se vêm da nossa área e como más, se vêm de outras áreas.
E o fundamental, também por causa deste tipo de eterna e estéril discussão,é que a situação existe, e urge resolvê-la.

Tonibler said...

Realmente, se esta lesma é o Cavaco dos próximos 5 anos, deixem-me ajeitar que isto vai ser tremendo de CHATO!

crack said...

Caro Pinho Cardão, a questão é, exactamente, essa: o problema existe e o PR abordou-o com a simplicidade forte de quem não está sujeito a essas "regras" do oportunismo partidário. Não lho perdoam, como se esperava.

crack said...

Caro Tonibler, tenho acompanhado os seus comentários no 4R e os seus posts, no seu blog. Apesar de alguma discordância, parecia-me que estava contra a política espectáculo, dos soundbytes para o telejornal, das medidas visando o eleitorado domesticado, em síntese, que preferia a substância à propaganda vazia, e, nisso, estaria de acordo consigo. Por este seu comentário, vejo que me enganei. Seriedade, serenidade, competência e solidariedade são, por si, considerados chatos. Talvez sejam, mas se o critério de não ser chato é o mais importante para avaliar a acção do PR, então cá por mim prefiro deixar o espectáculo aos profissionais e ir ao circo, ou ao teatro.

henrique santos said...

De facto isto anda mesmo esquisito.
É o "Centrão", eu diria "Direitão" no seu melhor. Um Presidente, uma Maioria, Um Governo. E uma Oposição contente com o seu Presidente e "satisfeita", fora fait-divers, com a política do Governo. Assim, realmente, a distinção Direita Esquerda, não faz sentido. Está descentrada para um dos lados, pelos ditos representantes da Esquerda.
Para mim não passa de um triste espectáculo das gentes ditas da Esquerda, que eu das Direitas, só tenho a dizer: cumpram o seu papel. Só não se armem em arautos da justiça social. O vosso passado, presente e futuro não passam por aí. Por muitos discursos disfarçados.