«Por meio da morte ou da doença, da pobreza ou da voz do dever, cada um de nós é forçado a aprender que o mundo não foi feito para nós e que, não importa quão belas as coisas que almejamos, o destino pode, não obstante, proibi-las.»
Bertrand Russell
Monday, July 30, 2007
The magic lantern
Ingmar Bergman era mentalmente doente, por uma debilidade da sua natureza, ou, segundo alguns, por força da educação fortemente repressiva que recebeu. O seu contributo para o cinema emana, em grande parte, desse caótico e deprimente universo pessoal, que alguma crítica ajudou a guindar a génio, classificando o seu caos interior, que ele estilhaçava em imagens, como expoente de intelectualidade. Enquanto que uma crítica snob e comprometida procurava, no desamparo cinematográfico da sua obra, o contraponto qualitativo, com marca de autor, à cinematografia clássica saída do star system, Bergman reconhecia que não conseguia ver nenhum dos seus filmes, sem ficar num estado de profundo desespero e depressão. É essa lúcida e cerebral abordagem à sua filmografia, que lamento ver perder-se com a sua morte. Com esta, voltarão as análises da intelectualidade reinante, as teses dos cinéfilos que não amam o cinema, e os aprofundamentos psicanalíticos da indústria, para quem a cinematografia bergmaniana apenas representa uma fatia de mercado, que convém alimentar na sua singularidade. Cinematografia bergmaniana que o próprio não identificava, sequer, e que para ele não passava de um espaço em que libertava os gritos de uma mente torturada e doente, que, expondo-se assim, buscava, obsessivamente, a autoregeneração. Que nunca encontrou no cinema, mas apenas no teatro. Bergman morreu, tão doentiamente demente como sempre foi, enfrentando, finalmente, o cavaleiro da morte, que tanto o obsessionou.
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