Wednesday, January 26, 2005

Antologia




A ciência, a ciência, a ciência...
Ah, como tudo é nulo e vão!
A pobreza da inteligência
Ante a riqueza da emoção!
Aquela mulher que trabalha
Como uma santa em sacrifício,
Com quanto esforço dado ralha!
Contra o pensar, que é o meu vício!
A ciência! Como é pobre e nada!
Rico é o que alma dá e tem.

Fernando Pessoa


No silêncio todos somos iguais (III)

O serviço público de televisão debateu ontem a educação, no contexto ( e por falar em contexto, vale a pena ler) de uma semana de grandes (apenas no tempo) debates, com os quais, com pompa e circunstância, entendeu fazer, neste período pré-eleitoral, o diagnóstico do estado da nação.
Em época de saldos, a RTP não resistiu. Resultado: déjà vu e démodé.
Se, quanto ao painel de convidados, somos levados a duvidar da sanidade mental de quem convidou, quanto ao painel de responsáveis dos partidos, ficamos com a certeza de que tudo vai continuar na mesma, isto é, vamos estar cada vez pior.
O ex-ministro do PS, apesar da sua incomparável qualidade face aos restantes comparsas de “mesa”, viu-se aflito para nos fazer crer que algo de novo podemos esperar relativamente ao que o ministério produziu quando por lá passou. Ele não acredita, nós também não. Ficamos por isso mesmo.
A deputada do PCP mostrou o que valem anos de tarimba na assembleia e nas comissões de educação, esteve igual a si mesma (e, nesta matéria, está sempre muito bem, por bem informada, por acutilante, por incómoda) e brindou-nos com mais material para pensar do que os restantes todos juntos. Infelizmente, e porque as coisas são como são, grande parte dele será desperdiçado.
O representante do BE brindou-nos com a sua presença e, com isso, trouxe-nos algo valioso: ficámos com a certeza que, despido o diáfano manto da demagogia, o bloco nada tem a dizer sobre educação. O senhor teve os seus minutos de fama, passa a pasta ao folclore na assembleia, tudo como dantes.
Os representantes do PSD e do PP estavam, à partida, numa situação “ingrata”: sendo os actuais secretários de estado, poderiam ser confrontados com a obra feita, ou com a ausência desta, e quaisquer propostas para o futuro ficariam desde logo diminuídas, por estarem a ser assumidas por governantes desgastados pela desastrada acção governativa desta trapalhona equipa da educação. Impunha-se, portanto, inverter a lógica e reverter a situação a favor dos respectivos partidos e seus programas.
O representante do PSD acusou o peso da situação em todas as suas infelizes intervenções, o que foi visível até na postura tensa, na voz vacilante e incerta, no olhar doentio. Sabiamo-lo fraco, lamenta-se que seja tanto. Para além do vazio do seu discurso, o seu partido fica a dever duas pérolas a este doutorado em psicologia: em directo, completamente perdido e submisso, diluiu o programa do governo do seu partido para a educação nas poucas linhas de actuação alinhavadas pelo seu oponente do PS e demonstrou que, para este PSD, o XV governo é um sapo mais difícil de engolir do que os governos do Engº Guterres. Como tiro no pé, melhor era impossível.
Sobrou o representante do CDS/PP, ele também secretário de estado em funções e que era, quando tomaram posse, o elo mais fraco, ou o peixe fora de água, na equipa da educação. Conseguiu ser sério, ao mostrar que leu, que se informou, que PENSOU. É certo que mostrou pouca obra feita, ou iniciada, mas é preciso que se saiba que, no imobilismo que caracterizou o ministério de Mª do Carmo Seabra, foi o único que conseguiu dar continuidade ao que estava em curso, redefinindo estratégias e encontrando percursos. Percebeu-se que será o único que, no seu ministério, pode invocar ter visto o seu trabalho interrompido. Não é pouco, e o mérito é todo seu.
Fátima Campos Ferreira esteve particularmente infeliz, permitindo que corressem à solta as banalidades e cerceando as raríssimas intervenções em que se adivinhava poder haver um maior fôlego.
Em conclusão: no sentido que David Justino lhe dá, no silêncio todos foram iguais, neste debate.

Satin



«Eu hoje ando atrás de algo impressionante
Que me mate de susto
Um impulso, um rompante...»

Adriana Calcanhoto

Tuesday, January 25, 2005

Antologia

Somos os filhos da época,
e a época é política.
Todas as coisas - minhas, tuas, nossas,
coisas de cada dia, de cada noite
são coisas políticas.
Queiras ou não queiras,
teus genes têm um passado político,
tua pele, um matiz político,
teus olhos, um brilho político.
O que dizes tem ressonância,
o que calas tem peso
de uma forma ou outra - político.
Mesmo caminhando contra o vento
dás passos políticos
sobre solo político.
Poemas apolíticos também são políticos,
e lá em cima a lua já não dá luar.
Ser ou não ser: eis a questão.
Oh, querida que questão mal parida.
A questão política.
Não precisas nem ser gente
para teres importância política.
Basta ser petróleo, ração,
qualquer derivado, ou até
uma mesa de conferência cuja forma
vem sendo discutida meses a fio.
Enquanto isso, os homens se matam,
os animais são massacrados,
as casas queimadas,
os campos de tornam agrestes
como nas épocas passadas
e menos políticas.


Wislawa Szymborska


«No silêncio todos somos iguais» (II)


Outro ex-ministro da educação veio esta semana falar sobre o tema. No que ao ensino não superior diz respeito, Marçal Grilo, numa entrevista que nos deixa a pensar se não estará a perfilar-se para o inevitável pós-socrático/guterrismo, aborda também alguns dos “dramas” da educação em Portugal, numa perspectiva de certo modo diletante – centrar nas escolas a capacidade de gestão suficiente para que estas possam assegurar o cabal cumprimento das finalidades a que se destinam, em padrões de exigência e de qualidade correspondentes, quer às necessidades decorrentes da sua realidade concreta, quer aos recursos adequados e disponíveis para suprir estas. O caminho é, necessariamente, por aí, mas a estrada está cortada, como o próprio reconhece.
Pelo meio, Marçal Grilo coincide com Justino na necessidade de lideranças fortes nas escolas e no reconhecimento do papel determinante dos professores no sucesso da escola junto dos alunos; não escamoteia uma realidade incómoda para grande parte das famílias – que é a ausência de uma correcta noção destas de qual deve ser o papel da escola na aprendizagem dos seus filhos que engrossa as estatísticas do abandono escolar – e não deixa de pôr o dedo na ferida aberta que é a relação perversa entre a administração e os sindicatos da educação, tão exemplarmente exposta no último concurso de professores.
Marçal Grilo retoma alguns dos pontos fortes do seu pensamento, enquanto ministro, e continua a pensar muito bem, mas nota-se-lhe ainda aquele desencanto do “não é possível”, com que acabou por deixar marcada a sua passagem pelo ministério.

«No silêncio todos somos iguais» (I)

É o título do livro que David Justino lançou na passada quinta-feira, em Lisboa, com a sua análise dos resultados dos rankings das escolas, a partir da classificação feita com base nos resultados dos exames nacionais do 12º ano, nos últimos cinco anos.
Para além do livro, leitura a reter, ficam-nos: a satisfação de ver dado por findo o tabu para falar de educação, que se auto-impusera; poder constatar o regresso daquela alegria de quem pensa, há muito, as questões da educação a partir do real, do que se pode, e deve, fazer; verificar que recuperou, vintage, a força com que um dia entrou na 5 de Outubro e com que conseguiu entreabrir as ferrugentas portas do velho ministério; reencontrar a frescura de pensamento, que sempre lhe guiou o discurso e a acção, e que quase o tornou o melhor ministro da educação das últimas décadas.
Foi confortável, e animador, sentir que continua aí, pensante e actuante, e que continua a ter a coragem de nos vir dizer, com aquela simplicidade desarmante de quem sabe, que «o que importa realmente para os bons resultados das escolas, é a organização, liderança, qualificação e motivação dos professores».

Monday, January 24, 2005

Esperemos que não seja mais um para morrer na praia...

«Promover os livros, criar novos públicos leitores e enraizar hábitos de leitura nos portugueses, começando pela população escolar, são os grandes objectivos do plano (Plano Nacional de Leitura), que terá nos estabelecimentos de ensino o principal campo de actuação.»



Vale a pena ler todo

«Eu sou completamente contra esse coro folclórico de um feminismo retardado, apostado na total desresponsabilização dos machos envolvidos na progenitura.»