Friday, May 05, 2006

Thursday, May 04, 2006

La donna e mobile qual piuma al vento...

A semana vai fértil, em notícias da educação. Entendeu a central de propaganda do governo ser este o momento de entreter o país com uma tômbola de novidades, para "almofadar" algumas peripécias menos simpáticas com a publicação da lista de colocação de professores e com o despacho dos destacamentos de professores doentes (que Valter Lemos dizia não ter feito e que, afinal, parece que sempre tinha produzido, provavelmente em plena crise de sonambulismo, já que não se admite que possa ser um mentiroso compulsivo - apesar dos antecedentes de autarca, nos tempos do Politécnico, cala-te boca) e ainda para absorver as esperadas ondas de choque que o final do ano lectivo e os resultados dos exames sempre provocam.
Numa exímia demonstração do domínio das técnicas de propaganda, a catadupa de notícias divide-se em muito boas, assim-assim e até uma dramática, mas o efeito desta não será grave, pois a catalogação do "desastre" vem da própria ministra, e logo devidamente acompanhada das miraculosas soluções-maravilha, que transformarão o drama em commedia dell 'arte!
O muito bom, para o governo, não deixa de ser uma janela de oportunidade para as escolas e para os profissionais da educação, que a quiserem agarrar bem - a criação do conselho coordenador das escolas públicas. Sem uma real autonomia das escolas e sem a profissionalização da gestão escolar, este conselho nasce prematuramente, mas ponha-se a criatura na incubadora das boas-vontades, e pode ser que seja algo mais do que um nado-morto.
O dramático, no dizer da ministra, é o estado do ensino secundário, com taxas de abandono e reprovação que nos deixam de rastos nas estatísticas e estragam a imagem deste governo feliz, sem lágrimas. O desastre é, efectivamente, muito grande, mas as soluções encontradas não passam da panaceia do costume, se bem que repetidas com entusismo e convicção, tanta que quase acreditamos na ingenuidade das intenções. Os resultados, decerto, não passarão do que tem sido habitual, e dentro de uns anos andaremos, ainda, às voltas com estatísticas aterradoras. É a vida, dirá Guterres, bem colocado para apoiar os portugueses que acordem e decidam fugir deste colapso permanente, em que transformaram Portugal.
No assim-assim, passamos pelas novas orientações que são dadas às cantinas escolares, para o fornecimento de refeições mais saudáveis (sai barato e entusiasma os potenciais candidatos a modelos); pelo investimento de dois milhões e meio de euros a "lavar a cara" às escolas que vão receber os alunos cujas escolas encerraram (os alunos levantam-se ao cantar do galo, deitam-se com as galinhas, mas ganham o direito a vivenciar a experiência de terem que batalhar pela sobrevivência em bandos de colegas hostis); e pelos incentivos a um 1º ciclo de mais qualidade (de onde sairão sem saberem escrever e contar, mas a dançarem em inglês e a representarem ao melhor estilo morangos com açúcar).
Não querendo ser pessimista, que a situação é desesperada, e grave, antecipo mais um ano lectivo sem as necessárias, e profundas, mexidas de que o sistema educativo precisa, e merece.
O futuro, entretanto, qual erva daninha, vai abrindo caminho a custo, mas em passos irreversíveis, apesar do governo, da ministra e de tutti quanti. O Projecto Escola Interactiva é um dos seus intrumentos e está no terreno, com propostas suficientemente apelativas para nos fazerem acreditar que uma escola nova é uma inevitabilidade. Será a reboque, mas lá chegaremos.

Wednesday, May 03, 2006

Em média, ocorre uma morte por hora

O surto de cólera em Angola, que ainda não atingiu o seu ponto máximo e já fez, em poucas semanas, mais de mil mortos, agrava-se, tanto por via do subdesenvolvimento (excesso de população, deficiência nas estruturas de saneamento básico e precaridade dos cuidados básicos de higiene e saúde pública), como do desenvolvimento (melhores acessibilidades, maior mobilidade das populações, expansão territorial da doença). Entretanto, o governo angolano tem mantido uma teimosa atitude de rejeição face ao crescente agravamento do problema e na recusa à ajuda internacional.

Erro no multibanco impede pagamento de dívidas fiscais

Aos contribuintes resta-lhes dirigirem-se às repartições de Finanças.
Simplex!

Antologia

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.

Maria Teresa Horta

Tuesday, May 02, 2006

As nossas sociedades modernas não podem aceitar o fatalismo das misérias humanas (II) *

Menosprezar o discurso do Presidente Cavaco Silva, remetendo-o para o saco de caridosas palavras de conforto e simpatia, mais ou menos inconsequentes, e atribuir-lhe como intenção primordial esquivar-se a uma contenda com um parlamento apanhado em falta, ou a entalar o governo pela má performance na gestão político-económica deste país, que três relatórios fizeram questão em evidenciar, é continuar a ver a árvore e não ver a floresta, pior ainda, é um exercício de estultícia, que só desqualifica quem se dá ao trabalho de exercitar tal raciocínio. Mesmo quanto àqueles que, não se atrevendo à crítica feroz, relegaram o discurso para a categoria de uma peça elaborada com o pouco nobre objectivo de agradar a todos, pretensão que, segundo tão caridosas almas, o Presidente teria tido relativamente a esta sua primeira intervenção de fundo após a posse, só posso dizer que acho que estão a imitar, magnificamente, a avestruz.
Dos centos de metros de comentários que sobre o assunto se têm produzido, não foi por acaso que me socorri da frase mais reveladora do que escreve Medeiros Ferreira hoje no DN, para titular estas notas. Fi-lo porque, num texto que me pareceu um mortal à rectaguarda, empranchado, em que Medeiros Ferreira parece querer vir salvar a honra de uma esquerda estupefacta pelo terreno pelo qual o Presidente se aventurou, logo aquela esquerda para quem as questões da pobreza dos verdadeiramente pobres e da exclusão dos verdadeiramente excluídos são pedras de toque esquecidas na trituradora da propaganda e do interesse político menos transparente dos actuais gestores da coisa pública, é essa frase que sintetiza, de forma lapidar, quer as razões que levaram o Presidente a dizer o que disse, quer o desafio que lançou à sociedade portuguesa, toda ela, para resolver esta questão essencial para a nossa democracia. Essencial, sim, porque, «o sonho de um País livre e democrático é indissociável da ambição de uma sociedade mais desenvolvida e com mais justiça social» e, se «muito progredimos na modernização da economia e na afirmação de novos estilos de vida, ficámos muito aquém na concretização dessa ambição de uma sociedade com maior justiça social», não sendo « moralmente legítimo pedir mais sacrifícios a quem viveu uma vida inteira de privação». As palavras são do Presidente no seu discurso, mas a esses comentadores com pendor suicida para a irrelevância, eu pergunto: quantos dos homens de Abril as renegariam, então, como o móbil da sua acção? Quantos deles as enjeitariam, hoje, como despiciendas, face a um adquirido de bem-estar e desenvolvimento, que a liberdade de Abril trouxe? Quantos desses fazedores da revolução sem sangue podem não subscrever as preocupações deste Presidente que, em tão sinalado dia, foi ao cerne do que não fomos, ainda, capazes de fazer com a liberdade que conquistámos, ou recebemos?
Reli o discurso do PR e, quanto mais o releio, mais simples e clara lhe encontro a mensagem, mas também mais dura e acusatória a interpreto. Porque ela é, em simultâneo, um forte abanão às consciências de todos nós, e ele não se exclui, pelas oportunidades que desperdiçámos, e um lancinante apelo, para que este desperdício não volte a repetir-se.
«É, seguramente, aos gestores do momento que cabe decidir os caminhos, mas é onde esses caminhos nos levam que lhes hão-de dar, ou não, o reconhecimento das novas gerações. Fomos capazes de concretizar o sonho de um Portugal livre e mais próspero, mas estamos longe de podermos realizar a aspiração de maior justiça social. Os Portugueses esperam dos políticos, que livre e democraticamente elegeram, que estejam à altura dessa exigência, que se empenhem em dar uma nova esperança aos mais desfavorecidos da nossa sociedade, que cooperem no sentido de mais facilmente poderem superar as dificuldades e naturais divergências ideológicas.»
Se nestas palavras do Presidente não formos capazes de ver autocrítica, nem crítica, nem avisos, não admira que não sejamos capazes de ver no discurso mais do que irrelevantes considerações e um desafio para um compromisso cívico para a inclusão social destinado ao fracasso. Se assim for, simplesmente não estamos à altura do Presidente que temos. Se assim for, eu sou dos que acredita que só nos resta um caminho: crescermos como povo, para nos pormos ao seu nível. E para não sucumbirmos, uma vez mais, à espuma dos dias.
* passagem retirada do artigo de opinião de Medeiros Ferreira, no DN.

As nossas sociedades modernas não podem aceitar o fatalismo das misérias humanas (I)*


Na sonolenta lazeira do feriado dedicado ao trabalhador, com uma calorosa brisa de um começo de manhã fortemente ensolarada a obrigar-me a rever o programa «turístico» do último dia das miniférias, não pude deixar de ir ouvindo o som da televisão que chegava dos fundos da casa e me alertava para que o remanso daquela varanda preguiçosa sobre o rio, mais não era do que uma curta e frágil trégua na espuma revoltosa dos nossos cinzentos dias. A SIC notícias repetia O Eixo do Mal, e os residentes do programa afadigavam-se em convencer-nos, em tom gritado cada vez mais alto, que a nossa crise só eles, iluminados, a percebem em toda a sua extensão, e que se não têm o remédio para a mesma, andam por lá muito perto, tanto que quase acreditamos que se deveria «dispensar» o governo e governar o país a partir dos bitaites que proliferam pelos comentários com que a verborreia televisiva nos matraca. Um parêntesis, só para constatar como é muito divertido ouvir um programa televisivo, sem o ver, porque o ridículo de algumas afirmações, de que a imagem nos distrai, se torna tão evidente, que merecerem-nos um sorriso constitui uma enorme generosidade da nossa parte. Mas adiante.
Um dos comentadores, que, pela voz, não reconheci, falava ainda do discurso de Cavaco Silva na AR e (pelo menos o tom era de seriedade, garanto), com indignada e superior convicção, afadigava-se em demonstrar que a peça mais não é do que um estafado conjunto de banalidades alinhavadas para fugir à agenda dos reais problemas do país, que um PR não poderia ter iludido, em ocasião de tal solenidade e relevância histórica. Admito que tenho a tendência, ao ouvir isto, para desligar e encolher os ombros, pensar que opiniões com esta inconsistência há muitas, que as palavras leva-as o vento, que o tempo se encarregará de demonstrar que…, enfim, as muletas do costume, quando nos confrontamos com o que consideramos banalidades daquele teor. Mas será que é esta a atitude a tomar - continuarmos a ser dóceis consumidores destes comentários que consideramos da treta – o que, no limite, constitui uma extrema arrogância das nossas convicções, face àquilo com que não concordamos? Será que, se fosse esta uma opinião coincidente com a minha, tão rápida e facilmente lhe encontraria a mesma fragilidade argumentativa, a condenaria pela cegueira ao essencial, a remeteria para o baú da reciclagem intelectual? Concluindo que a minha resposta poderia (pelo menos deveria) ser não, dediquei ao assunto algum do meu tempo, e paciência, para no final, confesso desde já, ter ficado «na minha», isto é, pensando o que já pensava (e escrevi aqui) sobre o discurso do Presidente Cavaco Silva. O exercício não foi, contudo, inteiramente estéril.
* passagem retirada do artigo de opinião de Medeiros Ferreira, no DN.

Monday, May 01, 2006

Dia do Trabalhador

Para quantos, já não é? Para quantos, nunca foi? Para quantos, deixará de ser?


Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.

Almada Negreiros