Monday, January 24, 2005

Claridades do sul

Eu gosto das aldeias sossegadas,
com o seu aspecto calmo e pastoril,
erguidas nas colinas azuladas,
mais frescas que as manhãs finas de Abril.

Pelas tardes das eiras, como eu gosto
de sentir a sua vida activa e sã!
Vê-las na luz dolente do sol-posto,
e nas suaves tintas da manhã!...

As crianças do campo, ao amoroso
calor do dia, folgam seminuas,
e exala-se um sabor misterioso
de agreste solidão das suas ruas.

Alegram as paisagens as crianças
mais cheias de murmúrios do que um ninho:
e elevam-nos às coisas simples, mansas,
ao fundo, as brancas velas dum moinho.

Pelas noites de Estio, ouvem-se os ralos
zunirem nas suas notas sibilantes...
E mistura-se o uivar dos cães distantes
com o cântico metálico dos galos.


Gomes Leal

«Há um país imenso mais real, do que a vida que o mundo mostra ter ...» *

A propósito do artigo de hoje de José Carlos Abrantes sobre a responsabilidade dos media no nosso colectivo desânimo, e embora concordando com ele, na generalidade, convém não esquecer como, no meio do circo informativo em que já se transformou esta indescritível pré-campanha, conseguimos encontrar oásis de sanidade e de lucidez, que só não nos deixam uma réstea de esperança, porque não podemos ter ilusões no futuro da relação, crescentemente fatal, entre os media e a política.
Honra seja feita a inúmeros comentadores da nossa praça, pois a eles se devem, nesta fase da campanha eleitoral, o mais cru diagnóstico e a mais adequada terapêutica para os males que nos afligem. Efectivamente, as mostras de solidez de pensamento próprio, de qualidade, de rigor e de exigência na reflexão sobre o Estado, a Administração e as Finanças Públicas, a Saúde e a Educação, estão a ter origem, com maior acuidade e frequência, no grupo dos comentadores, jornalistas e opinion makers, mais do que no dos políticos, ou no das personalidades que, de alguma forma, influenciam a vida política nacional.
O fenómeno parece-me explicável, por variadas razões – a formação, elevada qualificação e especialização de alguns comentadores; o distanciamento que conseguem manter dos interesses que condicionam a acção política; a liberdade individual que esses comentadores têm face a alinhamentos editoriais; a falta de apetência por uma carreira política. No outro extremo, o dos políticos e personalidades “parapolíticas”, encontramos o oposto: a erosão e vulnerabilidade reflexiva a que, inevitavelmente, a actividade política conduz; o espartilho partidário dos compromissos que não se podem romper e das rupturas que não se podem fazer; a falta de investimento sério e descomprometido no estudo, no conhecimento e no saber.
Quem acompanha a comunicação social pode ser levado a pensar que temos, hoje em dia, mais e melhores comentadores políticos do que que políticos “de topo” no activo, o que, de certa forma, será o que introduz perversidade no “sistema”. Sem entrarmos no universo do comentário “cabalístico”, e não estando em causa as teias dos interesses das empresas de informação ao serviço dos partidos, há comentadores que, com os seus artigos de opinião, identificando erros e desfazendo acções governativas, desmontando deslizes e desmandos da oposição, sacudindo e pondo a nu interesses de grupos, empresas e consórcios, apontam caminhos certos para a reforma do Estado e para o saneamento do pântano em que a vida política portuguesa se tornou. Deverão, por isso, tornar-se políticos? E se sucumbissem a essa tentação, será que seriam bons políticos? A resposta deverá ser, provavelmente, negativa, mas o certo é que o serviço que prestam acaba por ser, não apenas estéril, como profundamente traumatizante para o comum cidadão – dão-nos a conhecer o veneno, informam-nos sobre qual é o antídoto, mas ficamos sem ter quem o aplique.
Talvez que a alguns reste, como diz Abrantes, «ver que a vida, individualmente considerada, baseada na nossa experiência pessoal, encerra algum progresso, alguma esperança e, mesmo... alguns motivos para sorrir». Parece-me pouco.

* Fernando Pessoa

Thursday, January 20, 2005

Antologia


From a branch
The bird called:


I HOLD your heart!
I wash it
And scour it
With bits of song
Like pebbles;
And your doubts
And your sorrows
Fall—drip, drip, drip—

Like dirty water.

I pipe to it
In little notes
Of life clear as a pool,
And of death

Clearer still;
And I swoop with it
In the blue
And in the nest
Of a cloud.



Max Michelson

Tuesday, January 18, 2005

"código de conduta para a responsabilidade eleitoral"


Diz Vital Moreira, no Público de hoje, a propósito do dito código que « todos os partidos, designadamente os mais prováveis candidatos ao Governo, deveriam observar em eleições, nele deveriam figurar (para além da exigência de lisura de procedimentos no combate eleitoral) pelo menos as seguintes regras imperativas: um diagnóstico suficientemente elaborado e sustentado sobre a situação do país, tal como cada partido a vê; uma avaliação do governo cessante, com um juízo sobre as principais medidas consideradas positivas e negativas; uma exposição minimamente densificada das linhas de orientação política que propõem e das principais soluções políticas a adoptar, caso venham a formar governo; uma indicação pelo menos genérica da equipa de protagonistas com que cada força política conta para levar a cabo o seu programa (para além das indicações que decorrem das listas de deputados); um esclarecimento sobre as alianças políticas em que apostam, ou ao menos as que excluem, caso elas venham a tornar-se necessárias para viabilizar soluções de governo.»

Observado o nosso eleitoral momento, percebemos como os nossos partidos entendem um código destes (com a nossa benemerência de fazer de conta que acreditamos que o têm) de uma forma cada vez mais telegénica.
Depois, admiramo-nos (ou talvez não) com o descrédito dos cidadãos na política, como mostram os resultados do inquérito de opinião que o mesmo jornal publicou.

Sócrates

Alguém tem de avisar o candidato a Primeiro-Ministro de que se deve deixar de jantaradas. Evitará o pouco saudável hábito de ter de vir desdizer-se ao almoço do dia seguinte.

Friday, January 14, 2005

«Though this be madness, yet there is method in 't.»*

Começo a achar que os constantes tiros nos pés com que Santana e a sua equipa nos brindam diariamente não resultam de incapacidade dos próprios, do azar, ou da má-vontade da comunicação social. Estou a convencer-me que são, isso sim, uma eficaz estratégia de camuflagem.
Vejamos dois dos casos mais recentes:
Professores avulso - com o seu absurdo comentário sobre a ida à Assembleia, a Ministra da Educação pôs tudo em polvorosa. O que restou de um assunto tão melindroso como o relatório da IGF sobre os erros que se verificaram no concurso de professores? Infindáveis referências em jornais e televisões sobre a falta de tino da senhora, uma azeda chamada de atenção do Presidente da Assembleia, umas vagas referências a que os responsáveis seriam os funcionários dos serviços e... ficámos por isso mesmo. Exigências quanto à divulgação do texto do relatório da IGF, ou pedidos de esclarecimentos quanto às responsabilidades que nesse relatório não podem deixar de ser atribuídas a esta equipa governativa (não esquecer os elevados custos que as levianas decisões desta ministra irão ter), nickles. Resultado: o povão contentou-se com o circo, quando devia exigir o pão. E esqueceu...
Abismos petrolíferos – um resort de luxo, um falcon fretado, uns mergulhos em tépidas e calmas ondas, e eis o caldinho pronto para deixar uns quantos meninos da comunicação social, com pouco mundo, em absoluto estado de histeria. Surfando a onda da lusitana mesquinhez, vem o Primeiro e manifesta-se incomodado, salta o ministro e diz que não sai mas quis sair, tal o incómodo do outro; para condimentar a africana expedição, juntam-se-lhe umas gotas de petróleo, uma missão negocial secreta, mais um ministro que não sabia de nada, mas que devia saber e...pronto. Mais uma corrida, mais uma vez tudo se baralhou e ninguém pergunta o que deveria sobre o assunto. Continuamos satisfeitos com o fait-divers.
A repetição, em cadência galopante, força-nos a perceber que é tudo demasiadamente grosseiro para ser credível. O melhor é começarmos a ter medo, muito medo, do que se vai descobrir por baixo de todo este make up.

*William Shakespeare

Wednesday, January 12, 2005

(Com o PS) Portugal vai ter um novo rumo

Em direcção às Berlengas, presumo.

Tuesday, January 11, 2005

A propósito

Neste blog (qualquer adjectivação seria menorizá-lo)temos um dos mais conseguidos exemplos de como os comentários podem constituir uma mais-valia.