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Friday, August 28, 2009

Antologia

O many gods, so many creeds,
So many paths that wind and wind,
While just the art of being kind
Is all the sad world needs.


Ella Wheeler Wilcox

Tuesday, April 29, 2008

Antologia

The setting of houses, cafes, the neighbourhood
that I've seen and walked through years on end:
I created you while I was happy, while I was sad,
with so many incidents, so many details.
And, for me, the whole of you has been transformed into
feeling.

Constantine P. Cavafy

Wednesday, April 02, 2008

Antologia

Amar o universo não me traz mágoa.
sobretudo,amar a areia
arrebata-me de júbilo e paixão.
Amar o mar completa a minha vida
com o tacto de um amor imenso.
Mas veio o vento e ,por momentos,
amargurou o meu corpo,a oscilar.
E está o Sol aqui,depois de uns dias
com o jardim obscurecido a beber sombra.
E sei que os átomos zumbem
e dançam como os insectos,
ébrios em redor do pólen.


Fiama Hasse Pais Brandão

Tuesday, March 25, 2008

Antologia

Sai-me dos dedos a carícia sem causa,
Sai-me dos dedos... No vento, ao passar,
A carícia que vaga sem destino nem fim,
A carícia perdida, quem a recolherá?
Posso amar esta noite com piedade infinita,
Posso amar ao primeiro que conseguir chegar.
Ninguém chega. Estão sós os floridos caminhos.
A carícia perdida, andará... andará...
Se nos olhos te beijarem esta noite, viajante,
Se estremece os ramos um doce suspirar,
Se te aperta os dedos uma mão pequena
Que te toma e te deixa, que te engana e se vai.
Se não vês essa mão, nem essa boca que beija,
Se é o ar quem tece a ilusão de beijar,
Ah, viajante, que tens como o céu os olhos,
No vento fundida, me reconhecerás?


Alfonsina Storni

Thursday, March 20, 2008

Antologia

Paralelamente sigo dois caminhos
Abstracto na visão de um céu profundo.
Nem um nem outro me serve, nem aquele
Destino que se insinua
Com voz semelhante à minha. O melhor mundo.
Está por descobrir. Não segue a lua
Nem o perfil da proa. Vai direito
Ao vago, incerto, misterioso
Bater das velas sinalado de oculto

Quero-me mais dentro de mim, mais desumano
Em comunhão suprema, surto e alado
Nas aragens nocturnas que desdobram as vagas,
Chamam dorsos de peixe à tona de água
E precipitam asas na esteira de luz.
Da vida nada senão a melhoria
De um paraíso sonhado e procurado
Com ternura, coragem e espírito sereno.

Doçura luminosa de um olhar. Ameno
Brincar de almas verticais em pleno
Sol de alvorada que descerra as pálpebras.

Ruy Cinatti

Wednesday, March 05, 2008

Antologia

Living in this world -
to what shall I compare it?
Its like a boat
rowing out at break of day,
leaving no trace behind.


Sami Mansei

Thursday, February 21, 2008

Antologia

In a cafe, once more I heard
Your voice - those sparse and frugal notes.
Do they not say that you spoke your native Greek
With an English accent?

Briefest of visions: eyes meet across the cafe;
A man of about my age - eyelids heavy,
Perhaps from recent pleasures.
I begin the most innocent of conversations.

Again I see that image;
Ancient delight of flesh
Against guiltless flesh.
Sweeter still, in its remembering.

Most innocent of conversations: once more, I am mistaken.
He leaves; the moment lost - and to forego
The squalor of this place, I read again your lines; those sparse and frugal notes.
In a taverna, you found beauty, long ago.

And when you draw, with your slim, swift pen
The image of that memory - time's patient hostage;
Then how can I forget him, that boy whom you could not forget,
Or that music, in a foreign language?

Andrew Crumey

Tuesday, January 15, 2008

Antologia

Mild is the parting year and sweet
The odour of the falling spray;
Life passes on more rudely fleet,
And balmless is its closing day.

I wait its close, I court its gloom,
But mourn that never must there fall;
Or on my breast or on my tomb
The tear that would have soothed it all.

Walter Savage Landor

Monday, December 31, 2007

Antologia

Lembrança

Ponho um ramo de flores
na lembrança perfeita dos teus braços;
cheiro depois as flores
e converso contigo
sobre a nuvem que pesa no teu rosto;
dizes sinceramente
que é um desgosto.

Depois,
não sei porquê nem porque não,
essa recordação desfaz-se em fumo;
muito ao de leve foge a tua mão,
e a melodia já mudou de rumo.

Coisa esquisita é esta da lembrança!
Na maior noite
na maior solidão,
vem a tua presença verdadeira,
e eu vejo no teu rosto o teu desgosto,
e um ramo de flores, que não existe, cheira!

Miguel Torga

Saturday, December 08, 2007

Antologia

At the last minute a word is waiting
not heard that way before and not to be
repeated or ever be remembered
one that always had been a household word
used in speaking of the ordinary
everyday recurrences of living
not newly chosen or long considered
or a matter for comment afterward
who would ever have thought it was the one
saying itself from the beginning through
all its uses and circumstances to
utter at last that meaning of its own
for which it had long been the only word
though it seems now that any word would do

W.S. Merwin



Wednesday, December 05, 2007

Antologia

Come back often and take hold of me,
sensation that I love, come back and take hold of me
when the body's memory revives
and an old longing again passes through the blood,
when lips and skin remember
and hands feel as though they touch again.

Come back often, take hold of me in the night
when lips and skin remember...

Constantine P. Cavafy

Monday, November 05, 2007

Antologia

Renoir



Naquele “pic-nic” de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, indo o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!



Cesário Verde

Thursday, October 25, 2007

Antologia

«When Peter the Great was Czar of Russia, some potentate presented him with a full-blooded Negro of gigantic size. Peter, the most eccentric ruler of modern times, dressed this Negro up in soldier clothes, christened him Hannibal, and made him a special body-guard.
But Hannibal had more than size, he had brain and ability. He not only looked picturesque and imposing in soldier clothes, he showed that he had in him the making of a real soldier. Peter recognized this, and eventually made him a general. He afterwards ennobled him, and Hannibal, later, married one of the ladies of the Russian court. This same Hannibal was great-grandfather of Pushkin, the national poet of Russia, the man who bears the same relation to Russian literature that Shakespeare bears to English literature.»
James Weldon Johnson's 1922 Preface to The Book of American Negro Poetry

Wednesday, July 11, 2007

Antologia

Mild is the parting year and sweet
The odour of the falling spray;
Life passes on more rudely fleet,
And balmless is its closing day.


I wait its close, I court its gloom,
But mourn that never must there fall;
Or on my breast or on my tomb
The tear that would have soothed it all.


Walter Savage Landor

Wednesday, June 27, 2007

Antologia

The lily's withered chalice falls
Around its rod of dusty gold,
And from the beech-trees on the wold
The last wood-pigeon coos and calls.

The gaudy leonine sunflower
Hangs black and barren on its stalk,
And down the windy garden walk
The dead leaves scatter, - hour by hour.

Pale privet-petals white as milk
Are blown into a snowy mass:
The roses lie upon the grass
Like little shreds of crimson silk.

Oscar Wilde



Saturday, May 26, 2007

Antologia

O que me encanta é a linha alada
das tuas espáduas, e a curva
que descreves, passáro da água!

É a tua fina, ágil cintura,
e esse adeus da tua garganta
para cemitérios de espuma!

É a despedida, que me encanta,
quando te desprendes ao vento,
fiel à queda, rápida e branda

E apenas por estar prevendo,
longe, na eternidade da água,
sobreviver teu movimento...

Cecília Meireles

Friday, April 13, 2007

Antologia

Voar com a asa ferida?
Abram alas quando eu falo.
Que mais foi que fiz na vida?
Fiz, pequeno, quando o tempo
estava todo ao meu lado
e o que se chama passado,
passatempo, pesadelo,
só me existia nos livros.
Fiz, depois, dono de mim,
quando tive que escolher
entre um abismo, o começo,
e essa história sem fim.
Asa ferida, asa ferida,
meu espaço, meu herói.
A asa arde. Voar, isso não dói.


Paulo Leminsky

Sunday, March 25, 2007

Antologia

He whom a dream hath possessed knoweth no more of doubting,
For mist and the blowing of winds and the mouthing of words he scorns;
Not the sinuous speech of schools he hears, but a knightly shouting,
And never comes darkness down, yet he greeteth a million morns.

He whom a dream hath possessed knoweth no more of roaming;
All roads and the flowing of waves and the speediest flight he knows,
But wherever his feet are set, his soul is forever homing,
And going, he comes, and coming he heareth a call and goes.

He whom a dream hath possessed knoweth no more of sorrow,
At death and the dropping of leaves and the fading of suns he smiles,
For a dream remembers no past and scorns the desire of a morrow,
And a dream in a sea of doom sets surely the ultimate isles.

He whom a dream hath possessed treads the impalpable marches,
From the dust of the day’s long road he leaps to a laughing star,
And the ruin of worlds that fall he views from eternal arches,
And rides God’s battlefield in a flashing and golden car.



Shaemas O Sheel


Monday, February 19, 2007

Antologia

Entra la luz y asciendo torpemente
De los sueños al sueño compartido
Y las cosas recobran su debido
Y esperado lugar y en el presente

Converge abrumador y vasto el vago
Ayer: las seculares migraciones
Del pájaro y del hombre, las legiones
Que el hierro destrozó, Roma y Cartago.

Vuelve también la cotidiana historia:
Mi voz, mi rostro, mi temor, mi suerte.
¡Ah, si aquel otro despertar, la muerte,

Me deparara un tiempo sin memoria
De mi nombre y de todo lo que he sido!
¡Ah, si en esa mañana hubiera olvido!


Jorge Luis Borges

Sunday, February 11, 2007

Antologia

Pode lá ser! Não quero, não consinto!
Tudo em mim se revolta: a carne, o instinto,
A minha mocidade, o meu amor,
A minha vida em flor!

É mentira! É mentira!
Se o meu filho respira,
Se o meu corpo consente,
Covardemente,
A minh'alma não quer!
Eu não quero ser mãe! Basta-me ser mulher!
Basta-me ser feliz!
E o meu instinto diz:
— "Acabou-se! Acabou-se! Agora renuncia:
Começa a tua noite: acabou-se o teu dia!
Tens vinte anos? Embora! A tua mocidade
Perdeu chama e calor, perdeu a própria idade.
Resigna-te. És mulher! Foi Deus que assim o quis.
Já foste flor: agora é só raiz." —
Não pode ser! É injusta a minha sorte!
Não quero dar vida a quem me traz a morte!
O meu destino há de ter outro brilho!
Vida, quero viver! E morro, morro...

Filho!
Pode lá ser, Jesus! Eu não mereço tanto!
Filho da minha dor, eu já não choro — canto!
Filho que Deus me deu! Por quê, Senhor,
Há só uma palavra: Amor, Amor, Amor?!
"Dai-me outra voz que nunca tenha dito
Coisas más, coisas vis... e que saiba a infinito...
Dai-me outro coração, mais puro, mais profundo,

Que o meu já se quebrou de encontro ao mundo...
Dai-me outro olhar que nunca tenha olhado,
Que não tenha presente nem passado...
Dai-me outras mãos, que as minhas já tocaram
A vida e a morte... o bem e o mal... e já pecaram...

Filho, por que seria? Ao vires para mim
Mudaste num jardim
Os espinhos da minha carne triste...
E como conseguiste
Dar uma cor de sol às horas mais sombrias?

Meu menino, dorme, dorme,
E deixa-me cantar
Para afastar
A vida, um papão enorme...
Meu menino, dorme, dorme...

Vamos agora brincar...
Que brinquedo, meu menino?
O mar, o céu, esta rua?
já te dei o meu destino,
Posso bem dar-te a Lua.

Toma um navio, um cavalo,
Toma agora o mar sem fundo...
Ainda achas pouco? Deixá-lo!
Se quiseres dou-te o mundo!
Mas por que não vens brincar?
Por que preferes chorar?
Jesus! Que tem o meu filho?
Que vida estranha no brilho
Do seu olhar?

Uma vida inquieta e obscura
Anda a queimar-lhe a frescura ...

Ainda hoje, meu filho, não sorriste
E o teu olhar é triste...
Cheiras a noite, a luto, a azebre ...

Senhor! O meu filho tem febre!
O seu hálito queima, o seu olhar escalda...
Ele que tinha um olhar de estrela ou de esmeralda
E um perfume de flor,
Agora tem na boca um amargo sabor
E cheira a noite, a luto, a azebre...

Senhor! O meu filho tem febre!
Tirai-me dos olhos toda a luz!
Livrai-me da blasfêmia... Deus! Jesus!
Pois se o meu filho morre, se agoniza,
Por que há flores no chão que ele não pisa?
Se num coval o hei de pôr, de rastros,
Por que estarão tão altos os astros?
Senhor, eu sou culpada. . . Eu sei o que é o pecado
Mas ele, meu Jesus, ainda não tem passado...
Para mim, não há mal que não aceite,
Mas ele, ainda tão perto do teu céu!
A sua vida era beber-me leite...
No olhar com que me olhava tinha um véu
De neblinas, de névoas de outras vidas...
As vezes, tinha as pálpebras descidas
E punha-se a chorar no meu regaço
Com saudades, talvez, do céu, do espaço...
O meu filho tem febre!
Por que andam a cantar pelos caminhos?
Por que há berços e ninhos?
Vida! O meu filho era belo,
O meu filho era forte!
Vida, que mãe és tu? Defende-me da morte!
Vida! Vida! Vida!

Louvado seja Deus! A morte foi-se embora!
Jà não tens febre agora!
Louvado seja Deus! O meu menino vive,
Este menino, o meu, que só eu tive!
E pude blasfemar!
E o meu menino chora, e eu posso já cantar!
E o meu menino canta e eu posso já chorar!
O meu menino vive e toda a vida canta,
Toda a terra é uma fresca e sonora garganta!
Que toda a gente o saiba e toda a terra o veja!
Louvado seja Deus!
Louvado seja!


Fernanda de Castro