Wednesday, November 30, 2005

Da passagem e dos afectos

NATAL

Nasce um Deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.

Fernando Pessoa

Recebido por email

Em 29/11/2005: «Dos 297 posts escritos até hoje no Super Mário, 204 são exclusivamente ataques a Cavaco Silva.»

Tuesday, November 29, 2005


Ingrid Bergman

Em que ficamos?

A senhora ME desvaloriza os casos de violência nas escolas, por serem em número reduzido(?!), face ao universo de escolas, alunos, professores e funcionários. O Gabinete de Segurança do ME aconselha a criação de uma estrutura para estudar mais a fundo o problema. Afinal, o problema é grave, ou não é?
Se não é, como afiançou a governante perante as câmaras de Tv, que absurda razão a leva a criar um Observatório para estudar e acompanhar estes casos? Há um boy sem job?
Um conselho: Senhora Ministra, aproveite as estruturas que já existem, ponha em campo a IGE, faça render os coordenadores educativos, mobilize as DRE, responsabilize as escolas, responsabilize os pais, arranje dinheiro para dotar as escolas dos funcionários necessários, dos animadores suficientes, dos psicólogos, terapeutas e assistentes sociais imprescindíveis e, por fim, apoie as escolas para uma aplicação correcta do estatuto disciplinar do aluno. Vai ver que, com a prata da casa, resolve o problema. O boy que vá pastar.

Surprise party?

Perfila-se um "Alegre" de Cavaco?

O pátio das cantigas

A senhora ME vê, sem sobressaltos, a resolução das "brigas" dos alunos dentro das escolas. O segredo, diz ela, está nas actividades não-lectivas, porque "Se os alunos não andam sozinhos no pátio, não há tantas hipóteses de estes comportamentos acontecerem". Ora, temos aqui uma prova da eficácia da ministra. Como não há, em muitas escolas, espaços para as actividades não-lectivas a que passaram a estar vinculados os professores, o ME optou por uma estratégia brilhante: em época de forte redução de pessoal de apoio, deslocam-se os professores para os pátios, onde passarão a exercer a tal função de amas -secas, que a estimável governante considera altamente recomendável. Magnífico!

Só?

Vem o ME dizer-nos que, no ano lectivo de 2004/2005, houve 1232 agressões nas escolas portuguesas. Nada de grave, parece pensar a ministra, até porque, dessas, só 191 necessitaram de intervenção hospitalar. Uma ninharia, frisa, solícito, o DN, recém-promovido a pasquim oficial.
Considerado o número destas "pequenas brigas", ficam-me algumas dúvidas:
- terão sido incluídas as agressões e a vandalização de bens, efectuados por alunos, a colegas, professores, funcionários e pais no espaço imediatamente contíguo aos portões das escolas?
- constam também desse número as agressões do foro sexual ocorridas nas escolas e nas suas imediatas cercanias?
- o número revelado inclui todos os processos disciplinares instalados a alunos, nos termos da legislação aplicável?
- as "brigas" de pátio, de que não resultaram ferimentos a necessitar de intervenção hospitalar, foram consideradas?
- todos os casos de consumo e transação de droga detectados no espaço escolar e imediatamente em redor deste foram contabilizados?
Se a resposta do ME for sim a todas as questões, o número está longe de poder corresponder à realidade. Se for não, talvez se aproxime do real, mas, então, para que serve atirar com este número para a opinião pública?
Uma nota muito positiva desta notícia - ficou a saber, quem não sabia, que os alunos maltratam professores, ao ponto de estes necessitarem de serviços médicos. Ora está aqui uma causa para as faltas de alguns professores, que ficarão em casa a tratar dos ferimentos, no corpo e na alma. Caro Vitor Reis, confesso que desta me tinha esquecido.

Monday, November 28, 2005

Antologia

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho
Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça
Mário Cesariny