Monday, September 25, 2006

Antologia

Eremitério
mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo
os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado
encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior dessa ânfora alucinada
desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem
o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão
assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração .
Al Berto

«Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos.»*


Todos conhecemos os casos de falsos abandonos, quer como chamada de atenção, quer como instrumento de medição da importância que se terá no círculo de pertença. Desde personagens públicas, que protagonizam vários fins de carreira, aos episódios vários das vidas de anónimos cidadãos, é recorrente o fenómeno de desistências, partidas e pontos finais, que apenas têm por finalidade tentar revitalizar situações estagnadas, ou que mais não representam do que momentos menos bons dos que protagonizam essa milenar estratégia. Como fenómeno universal e antigo que é, não deixa de afectar, também, a blogosfera. É, portanto, legítimo, que, no último post, muitos dos que por aqui passem tenham querido ver uma mensagem de adeus, até porque o mesmo se prestava a essa leitura. Não era esse, contudo, o seu objectivo, pelo menos conscientemente não o era, apenas uma singela reflexão sobre como o passar dos anos nos vai esgotando a vida, quase sem darmos por isso. Um dia acordamos para essa realidade e percebemos, não sem um friozinho na espinha, que os horizontes temporais para que o mundo estabelece as suas metas do médio prazo estão já fora do nosso próprio prazo de validade. Assim, de mansinho, vivendo a espuma dos nossos dias, desperdiçando a sedução do nosso quotidiano, nos vamos despedindo de nós, e do mundo, a que, impropriamente, chamamos nosso.
Tudo isto, apenas para dizer que o crackdown não se despediu, não ensaiou uma saída de cena, não propiciou um encore. Teria este velho caderno de rascunhos de se levar a sério, ou, então, ter um elevado sentido de humor, para se dar ao ridículo de tais manobras. O crackdown limitou-se a preguiçar, talvez nostálgico, de certeza muito cansado, e podem crer que profundamente aborrecido com o espectáculo de puro e maçador ilusionismo em que se tornou a realidade portuguesa. Gozadas as férias, retemperadas as forças, espicaçada a moleza por alguns fait-divers, que poderão ter consequência, volta o bicharoco às lides blogueiras, para deitar conversa fora, como se merecesse a pena, para outro fim que não o prazer próprio de dar voz ao pensamento. Aos que perguntaram, aos que ralharam, aos que espicaçaram, aos que aceitaram, gostaria de dizer que, apesar de tal não se ter procurado, não deixou de ser muito reconfortante saber que a possível despedida do crackdown vos mereceu uns minutos de atenção. E como a vida é um permanente retorno, reencontramo-nos aqui, para mais dois dedos de conversa, ao sabor da brisa. "Sentindo-vos", ou não, é bom saber-vos por aí.
* Marguerite Yourcenar

Monday, August 07, 2006

E assim, de mansinho, nos vamos...




Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.

Natália Correia

Saturday, August 05, 2006

Friday, August 04, 2006

PARABÉNS!


Ser criança é interessante:
Pirulitos, chicletes, pipoca, sorvete, bicicleta, patins,
TV e até mesmo a tal da internet.
Hora de dormir, hora de levantar.
Tem também a tal hora de estudar.
Ser criança é interessante:
Nadar, correr, pular, subir, descer, andar, sentar.
Sentar não é muito de criança,
O bom mesmo seria voar
Voar...
Nas asas de um pássaro.
Seria interessante!
Num ultraleve. Seria desafiante!
Num boeing 767. Confortante!
Nas asas do tempo. Emocionante!
Ser criança é interessante,
Mas o tempo voa e com ele vai a infância.
E ainda bem que ele voa!
Já pensou? Ser eternamente criança?
Ser criança. É interessante!
Ser adolescente. É emocionante!
Ser jovem. É desafiante!
Ser adulto. É confortante!
Você vai seguir todos esses caminhos,
Viver feliz, tranqüilo e radiante,
Se, enquanto o tempo voa,
Descobrir como é interessante ser criança.

Keis Röhsig Buhl

Tuesday, August 01, 2006

E por falar no PSD...

... e no "bom" trabalho que vem fazendo, enquanto oposição "credível e responsável", nada melhor do que apreciar, com vagar e na boa companhia de umas cervejitas bem geladas, a reacção, envergonhada e pequenina, do partido às explosivas (como sempre) declarações do sultão da Madeira. É caso para dizer que a pífia reacção é bem à dimensão do líder!

E agora? Não há consequências?

Esta é a "rigorosa" e "credível" equipa governamental que temos na 5 de Outubro. São secretários de estado e uma ministra como esta, que são os autores e responsáveis por actos de "elevada isenção e competência" como o que merece tal apreciação, que têm vindo a insultar os profissionais da educação e a questionar a sua competência e zelo. É com uma equipa como esta que se assegura ao povo português estar a trabalhar para melhorar a educação em Portugal! Se não fosse trágico, serviria como anedota de Verão.
Uma pequena nota, a propósito: em matéria de educação, o PSD continua mudo e quedo, ou então intervém para fazer humor, como no caso em que veio propor que as provas de aferição tenham consequências na avaliação dos alunos, ou estes não se empenharão na sua realização; será que Marques Mendes não encontra ninguém no partido com competência nesta matéria?

No Lóbi do Chá

«Um Estado onde um vereador tem dezoito assessores e onde os ministros gastam milhares de contos a decorar gabinetes, dá-se ao luxo de publicar uma lista de quem não lhe paga. Trata esses heróis como se fossem gatunos. Para mim, grandes homens, esses que fogem ao fisco. A lista que devia sair era dos políticos que têm dezoito assessores e que fazem ao dinheiro público o que Maomé jamais faria ao toucinho

EXCELENTE!