Andam por aí uns ofendidos que, com ares superiores, se riem dos que sentem haver défice democrático e um perigoso crescendo de autoritarismo. Acordarão mal, ou talvez não, porque serão, decerto, os que estarão ao lado dos que empunham o chicote.
«Por meio da morte ou da doença, da pobreza ou da voz do dever, cada um de nós é forçado a aprender que o mundo não foi feito para nós e que, não importa quão belas as coisas que almejamos, o destino pode, não obstante, proibi-las.» Bertrand Russell
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Saturday, June 23, 2007
Tuesday, April 17, 2007
Pensar Abril
Nos últimos anos, a desvalorização tem-se guindado a um papel protagonista, na política portuguesa. Quanto mais grave é a falta, mais rápida e pujante surge a desvalorização da mesma, devidamente sancionada pela transversalidade das fontes, de que emana.
São ministros apanhados por sisas por pagar - demitem-se com ar de virgens ofendidas e, de imediato, todos se apressam a saudar a atitude altamente responsável, fazendo esquecer a falta inicial; são políticos e governantes de quem se descobrem negociatas, armários de passados turbulentos, affaires pecaminosos, sobre os quais, quando descobertos, se apressam a passar a esponja da desvalorização, pela contrição e pena do apanhado; são altos responsáveis pela coisa pública, de quem se vêm a conhecer falhas de carácter e padrões de comportamento nada recomendáveis, logo desvalorizados à conta de erros de juventude. Os exemplos têm nomes, vários em cada "categoria", e todos os conhecemos. Mantém-se activos, em cargos discretos e bem remunerados, intocáveis. E, contudo, o "pecado original", na maioria dos casos, não foi investigado, nem julgado, simplesmente caiu, por desvalorização, no confortável esquecimento.
Como é necessário, para que a desvalorização de uns funcione, tem que haver um pequeno lote de uns quantos, a quem ela não se aplica. São os eternos "culpados", a quem nem a prova de inocência obtida na justiça consegue o favor da pública desvalorização. Os casos são vários, e também todos lhes conhecemos o rosto e o nome.
É a vida, diria o inefável Engº Guterres. Fatalismo, à portuguesa? Prefiro pensar que os erros de juventude cometidos nos anos da brasa da nossa jovem democracia, aliados à tradicional brandura dos nossos costumes, ditam esta transversal e selectiva preferência pela desvalorização. Entretanto, desvaloriza-se em nome do interesse público, teoricamente um valor a defender, a todo o custo; da estabilidade, outro valor seguro, no imaginário do nosso bem-estar, presente e futuro; da grandeza moral, da responsabilidade cívica, da ética, dos bons costumes... Desvalorizamos, compreendemos, passamos uma esponja, branqueamos, seguimos adiante. Sabemos que, no colectivo, o nosso grau de exigência vai minguando, o abandono do nosso direito à indignação começa a parecer-nos a normalidade, a fragilidade dos nossos princípios e valores passa a ser o padrão, e assim, insidiosamente, se vão ultrapassando as fronteiras do tolerável e do admissível, com uma cada vez mais acomodada tendência para aceitarmos a desvalorização, como prova de bom senso e classe, reservada ao escol da intelectualidade bem formada e bem pensante, do qual nenhum de nós quer ficar de fora.
A este propósito, neste tempo de Abril, tenho recordado, frequentemente, Sá Carneiro. Talvez por não ser ele um partidário da desvalorização, não a tolerando, nem em proveito próprio. 33 anos passados, uma coisa é certa - a democracia não cresceu, engordou! Mas, isso, é algo que convém desvalorizar.
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