Julgo ter lido que Soares terá comentado sobre o seu previsível oponente, da área da direita, na candidatura a Belém, que Cavaco é o candidato possível. Numa semana em que as sondagens lhe são adversas, a escolha do termo, se efectivamente Soares o empregou, mostram bem como a astúcia e o killer instinct do velho leão se mantêm inalteráveis.
«Por meio da morte ou da doença, da pobreza ou da voz do dever, cada um de nós é forçado a aprender que o mundo não foi feito para nós e que, não importa quão belas as coisas que almejamos, o destino pode, não obstante, proibi-las.» Bertrand Russell
Tuesday, September 13, 2005
«A tolerância é com as pessoas, não com os actos.»*
Só hoje li o desafio do Bloguítica, com a oportunidade que o atraso criou - ter acesso imediato à fase seguinte: a reacção de Pacheco Pereira ao mesmo; a reformulação do próprio Bloguítica, comentários de adesão ou rejeição, nomeadamente na Grande Loja, no Abnegado, no Tugir em Português, no bombyx mori, no Causa Nossa e em vários outros blogues.
Cultivando um hábito que me parece saudável, até na blogosfera - não repetir argumentos que outros já expuseram, sobretudo quando o fizeram brilhantemente - julgo que ainda sobra espaço para uma nota pessoal, até porque, afinal, é essa a finalidade mais comum de um blogue: ser um espaço de registos pessoais.
O meu dilema foi, está a ser, este: depois de uma reacção instantânea de rejeição ao desafio de Paulo Gorjão, numa primeira fase entendido por mim como uma caça às bruxas na pior linha de denúncia social, que a minha memória pessoal e o meu "imaginário histórico" me fazem, de imediato, repudiar, pergunto-me agora se cada um de nós tem o direito de, em nome dos próprios demónios, ser tão democraticamente "asséptico" na denúncia, que mais não faz do que criar o meio mais favorável para a emergência e a proliferação das teias de clientelismo e das redes de corrupção que minam a nossa democracia. Ou seja, interrogo-me até que ponto não haverá uma boa dose de cobardia individual numa confortável reacção de repúdio por estas formas de denúncia quando, só depois de tranquilizada a nossa consciência individual pela omissão da mesma, somos capazes de, colectivamente, culparmos o "sistema" pelas perversões que gera?
Adenda: O crackdown é um cliente fidelizado do excelente Diário da República. Incompreensivelmente, escapou-lhe o post que dedicou a este desafio e no qual se faz uma pergunta fundamental: «Não caberia neste desafio, por exemplo, a elencagem de ex-governantes que transitam directamente para empresas de sectores que antes tutelavam? »
* Padre Vasco Pinto de Magalhães
Monday, September 05, 2005
Saturday, September 03, 2005
Friday, September 02, 2005
O que o Katrina revelou *
* Sob este título, em dois posts, o DR resume, muito bem, o mais importante. Para além da sintonia com o que escreve, a alguns de nós resta, ainda, o sentimento, a que também nos devemos permitir dar espaço.
Nunca estive em Nova Orleães. A imagem que tenho da cidade é aquela que os livros, os jornais, a televisão e os filmes me permitiram “construir”. A traço muito grosso, uma cidade de confetti e mardi gras, em que há funerais a pé acompanhados por negros que sopram instrumentos vários ao ritmo sincopado de velhas melodias “tribais”; uma cidade baixa, negra e boémia, muito pobre mas com a alegria falsa do vaudeville, de costas voltadas para a cidade alta, de vivendas colonial american enfeitadas ao estilo boudoir, em que damas brancas de pele encarquilhada beberricam chá gelado ao som irritante de grafonolas perdidas no tempo, enquanto suspiram envoltas em nuvens de fumo que saem de conspícuos cigarros pendurados em boquilhas de meio metro. É Hollywood no seu esplendor, bem sei, mas amigos que por lá se perderam há uns anos reconhecem que basta retirar ao quadro a magia do celulóide, pintar-lhe as cores agrestes deste século da tecnologia e da indiferença humana, e tudo o resto pode resumir-se à dicotomia simplista que o nosso imaginário construiu. Acrescente-se que os negros são a grande maioria, que entre o voodoo, a prostituição e a droga, vivem nos limites de uma mendicidade folclórica, porque expressa em francês o velho sonho americano, com o qual têm tanto a ver como eu com os papuas da Nova Guiné.
Nunca estive em Nova Orleães, mas esperava estar, um dia. Com as águas que inundaram o bairro francês, morreu o meu sonho, tal como morreu o trompetista cego que actuava nos cafés da principal, mais os seus velhos e boémios amigos, as suas prostitutas e os jovens drogados que dormiam nos becos por onde as suas sombras se perdiam, quando rompia a manhã.
No país dos gigantes de vidro e aço, também eles de pés de barro, como um outro Setembro trágico demonstrou, Nova Orleães era uma cidade especial, vulnerável e frágil, qual baralho de cartas que um sopro destruiria. A sua fragilidade era o seu encanto, mas os cataclismos naturais não fazem viagens culturais, nem respeitam as obras de arte. O Katrina foi o intrumento da destruição, a incúria dos homens apenas lhe agudizou os efeitos. Olharmos agora, crítica e filosoficamente, sobre as escolhas racistas da morte e da destruição não será apenas a prova do nosso esquecimento do que foi, até há poucos dias, Nova Orleães, pérola do património deste imaginário colectivo? Alguma vez nos lembrámos de que o que alimentava o nosso deleite poderia ter um preço demasiado caro?
Nunca estive em Nova Orleães, sei agora que nunca lá irei, mesmo que um dia possa calcorrear as ruas que o Katrina inundou. A Nova Orleães que “conhecia” morreu, a que surgir no seu lugar será mais forte e, espero, mais justa na distribuição do risco e da riqueza. Não terá, contudo, o mesmo encanto decadente.
Nunca estive em Nova Orleães, mas esperava estar, um dia. Com as águas que inundaram o bairro francês, morreu o meu sonho, tal como morreu o trompetista cego que actuava nos cafés da principal, mais os seus velhos e boémios amigos, as suas prostitutas e os jovens drogados que dormiam nos becos por onde as suas sombras se perdiam, quando rompia a manhã.
No país dos gigantes de vidro e aço, também eles de pés de barro, como um outro Setembro trágico demonstrou, Nova Orleães era uma cidade especial, vulnerável e frágil, qual baralho de cartas que um sopro destruiria. A sua fragilidade era o seu encanto, mas os cataclismos naturais não fazem viagens culturais, nem respeitam as obras de arte. O Katrina foi o intrumento da destruição, a incúria dos homens apenas lhe agudizou os efeitos. Olharmos agora, crítica e filosoficamente, sobre as escolhas racistas da morte e da destruição não será apenas a prova do nosso esquecimento do que foi, até há poucos dias, Nova Orleães, pérola do património deste imaginário colectivo? Alguma vez nos lembrámos de que o que alimentava o nosso deleite poderia ter um preço demasiado caro?
Nunca estive em Nova Orleães, sei agora que nunca lá irei, mesmo que um dia possa calcorrear as ruas que o Katrina inundou. A Nova Orleães que “conhecia” morreu, a que surgir no seu lugar será mais forte e, espero, mais justa na distribuição do risco e da riqueza. Não terá, contudo, o mesmo encanto decadente.
Sinto sempre um pouco o ridículo de chamar a atenção para a qualidade da análise efectuada num post por Pacheco Pereira, no seu ABRUPTO. Considerado o profissionalismo do autor, a admiração de um desajeitado amador quase pode ser entendida como um abusivo pôr-se em bicos dos pés, o que não é, de modo algum, o caso.
Acontece que o seu post - Um Katrina muito nosso - é de imprescindível leitura para quem, na impunidade e facilidade da actividade de blogar, se atreve a tecer comentários, a opinar e mesmo a querer "ver" para além do visível, no que à situação política nacional se refere.
Escreve JPP:
«A nossa incapacidade, herança péssima do salazarismo e do atraso, de pensar e de fazer política fora da imprecação e da acusação moral é reveladora da nossa condição terceiro-mundista. É o equivalente em política ao feio que alastra a partir da Estrada Nacional 1, tem as mesmas origens, a mesma mecânica.Podia ser diferente? Claro que podia. Com esforço podia, mas duvido que o seja. A trituradora já está a funcionar com o seu habitual contingente de assessores, jornalistas, políticos, autores de blogues. O seu primeiro esforço vai ser a igualização moral (cívica, política): são todos iguais, ninguém é diferente, são todos tão maus como nós somos. Depois desta terraplanagem moral, então pode-se ir ao business as usual, como lhes convém.
Posso fazer diferente?»
Que cada um seja capaz de procurar a sua resposta.
Thursday, September 01, 2005
«O verdadeiro mal da velhice não é o enfraquecimento do corpo, é a indiferença da alma »*

O passeio de Soares começou, como esperado. Aos pés, um PS domado e um governo agradecido. Pululando em redor, inimigos de sorriso amarelo, amigos em radiante euforia, passados e futuros acólitos em reverente e esperançada subserviência. Déjà vu, sem dúvida, mas até isso transforma num trunfo. Goste-se, ou não, em política Soares tem o toque de Midas.
*André Maurois
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