Monday, January 31, 2005

É Fevereiro, é Carnaval...

Com a chegada de Fevereiro, entramos na recta final desta correria louca e sem sentido em que se tornou o XVI Governo. Perante a tempestade, que inexoravelmente se abaterá sobre nós, é tempo de pausa, de bonança e de robustecimento.
Atrás de nós, fica o espanto do impensável. À nossa frente, a perplexidade do por demais conhecido.

«Compassion is the basis of all morality.»*


É já um exercício penoso ler,ouvir, ou ver notícias sobre Santana Lopes, quer enquanto Primeiro-Ministro, quer como candidato a tal. E é penoso, porque da degradação psíquica, moral e física de um ser humano se trata, mostrada em directo e sem os retoques da cosmética social, que o mais elementar bom senso impõe aos humanos sãos, a partir da chamada idade da razão.
O diagnóstico clínico pode não ser ainda a loucura, mas ninguém pode fazer o que Santana Lopes está a fazer a si próprio e continuar a ser considerado responsável pelos seus actos.
Se fosse possível esquecermo-nos, por momentos, das consequências terríveis que a situação nos criou, seríamos talvez capazes de nos compadecermos do homem a apodrecer por detrás do que nos parece ser apenas uma galopante inabilidade política, quando esta mais não faz do que servir de latíbulo a um problema muito mais grave.
* Arthur Schopenhauer

Espaço de perplexidade

Escreve Rui Costa Pinto, na Visão:

«A intolerância e o crescente moralismo estão a devorar o debate político, que deveria servir para fomentar a avaliação das propostas apresentadas por cada uma das forças políticas.»

Espaço de perplexidade


Reclamamos destes políticos que se servem do país e não o servem, no que temos toda a razão; lastimamos a ausência de políticas que nos façam sair do atoleiro da ignorância, da inoperância e do compadrio, em que esses políticos nos têm, impunemente, mantido; mas qual é, verdadeiramente, o nosso grau de exigência, ou a legitimidade desta?
José António Lima abordou a questão na semana passada, no Expresso:
«A maioria dos portugueses (e dos que falam de alto e com desprezo dos políticos e das eleições) prefere ler «A Bola» ou a revista «Maria» (as tiragens são de centenas de milhares por semana) ao enorme esforço mental de se informar sobre um ou dois programas eleitorais. Prefere ver uma telenovela, uns palermas do riso ou uma qualquer quinta de nulidades à cansativa tarefa de seguir durante mais de dez minutos um debate sobre questões sociais ou políticas (os «shares» são esmagadoramente esclarecedores).

A maioria dos portugueses (e dos que tanto deploram o «oportunismo» dos políticos) queixa-se muito da fraude e evasão fiscais mas recusa (ou não pede) facturas por sistema e fecha convenientemente os olhos ao amigo que declara falências fraudulentas e ao familiar que não declara o grosso dos seus rendimentos aos impostos. Queixa-se muito da burocracia e do mau serviço do funcionalismo público, mas não resiste a meter umas «cunhas» aos conhecidos do partido, quando os governos e as autarquias mudam de cor, para darem emprego a mais uns quantos e encherem a Administração Pública de clientelas partidárias.»

Friday, January 28, 2005



«A política tem vindo a exigir cada vez mais aos seus protagonistas capacidade técnica de representação cénica como resposta às exigências de crescente transparência (pública e privada) e ao crescente poder invasivo da televisão. O próprio conceito de espaço público alterou-se profundamente: deslocou-se do campo físico do território urbano para o campo simbólico do espaço cénico.»
João Almeida Santos, Diário Económico


Espaço de perplexidade


Palavras de Jorge Sampaio, na sessão solene de abertura do ano judicial, no Supremo Tribunal de Justiça:

«A concertação entre as forças políticas, porque se trata de execução a médio prazo, é uma condição de viabilidade da reforma da justiça e de afirmação da supremacia do Estado num sector tão vital para o nosso desenvolvimento, para a nossa liberdade e para a nossa segurança.»

«Se as forças políticas associarem ao seu compromisso o dos representantes das várias profissões forenses, e a activa cooperação dos conselhos superiores das magistraturas, então terão conseguido uma larga e útil base de apoio para um combate que é difícil e é moroso.»

«A reforma da justiça não é uma mera questão de maioria parlamentar e de coragem política de um governo para afrontar interesses instalados e corporações, que, todos sem excepção, como o passado abundantemente evidencia, reagem e abrem frondas perante o menor sinal do que entendem ser uma perda de poder.»

Antologia

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda


Maria Teresa Horta

Espaço de perplexidade

Como escreve hoje no Público Isabel Arriaga e Cunha, Portugal tem os níveis de qualificação profissional mais baixos da UE . Segundo o seu artigo, uma bateria de relatórios da UE conclui que «Portugal mantém a mais baixa taxa de produtividade do trabalho de toda a União Europeia (UE) e a mais alta de abandono escolar, um dos piores níveis de qualificação profissional e um dos mais elevados riscos de pobreza e de exclusão social.»
Para a gravíssima situação em que Portugal se encontra, contribuem os números do abandono escolar, «40,4 por cento dos estudantes do ensino secundário, contra 15,9 por cento no conjunto da UE, e quase 40 por cento dos universitários», a que se somam: um ensino universitário que se mantém cego e surdo às reais necessidades de formação, fornecendo «cursos que não são suficientemente relevantes para as necessidades do mercado de trabalho» ( o que, « segundo Bruxelas, suscita "uma preocupação particular"»), a «baixa produtividade do trabalho, que, em 2003, representava 58,1 por cento do valor médio da UE» e os «tradicionais sectores económicos assentes em actividades de trabalho intensivo mas de fraco valor acrescentado».
Para Bruxelas, a «situação relativa à pobreza e à exclusão social permanece preocupante».
E nós por cá, todos bem?