Monday, June 14, 2004

“se queres ver um pobre soberbo, dá-lhe a chave de um palheiro.”

A melhor frase aplicada a este rescaldo eleitoral.

«The little lives of earth and form...»

Há surpresas, em dia de ressaca desportivo-eleitoral.
Uns, não estão tão deprimidos como se esperaria que estivessem; outros, não tão eufóricos quanto a nossa (má) memória fazia antever.
A ver vamos, no que dá este comedido pós.
No entretanto, descobre-se Philip Larkin num blog habitual e, a propósito, vem-nos à lembrança que o poeta também escreveu:

Words as plain as hen-birds' wings
Do not lie,
Do not over-broider things -
Are too shy.

Thoughts that shuffle round like pence
Through each reign,
Wear down to their simplest sense
Yet remain.

Weeds are not supposed to grow
But by degrees
Some achieve a flower, although
No one sees.

Friday, June 11, 2004

Retratos de família

Maria de Fátima viveu pouco e morreu bela, mas não feliz.
Quinze aninhos ceifados na dor do segundo parto, a parir o fruto de amor clandestino; inocente criança seduzida à força pelo galante e poderoso senhor da terrinha perdida nos montes. Vestiram-na de noiva, que nunca foi, num caixão pobre, que o pai, já demasiado velho, enterrou com a neta de dois anos agarrada às pernas. Ficaram-lhe as meninas e a memória da filha, criança alegre e amorosa, mulher prematura e infeliz. Memória com que criou as miúdas, tão forte que Maria de Fátima, que as filhas nem conheceram, está ainda presente na quarta geração dos seus descendentes pelas graças, pelo verso solto, pela cantiga incompleta. Havia, também, dois ou três brinquedos, mas perderam-se há muito no meio dos brinquedos das crianças da família.


Tarde cai a tarde
E a sombra vem andando pelo chão
Tarde cai a tarde
E a saudade
Também cai no coração

Pois alguém foi embora e não voltou
E outro alguém tão sozinho aqui chorou
Tarde cai a tarde
Cai o pranto dos meus olhos sem amor

Vento sopra vento
Levantando a poeirada pelo chão
Vento sopra vento
Sopra forte dentro do meu coração

Folha seca você já carregou
Então leva a saudade que ficou
Tarde cai a tarde
Cai a tarde na minha vida sem amor

Tarde cai a tarde
Cai a tarde na minha vida sem amor

António Carlos Jobim

Thursday, June 10, 2004

"Você fica eternamente responsável pelo que cativa"

rititi. Um grande blog.Uma escrita urbana, moderna, acordada. Uma escrita de uma mulher-macho, ou de um macho-mulher, pouco importa. Sem dúvida, uma escrita no feminino. A não perder.

Wednesday, June 09, 2004

Esta morte brutal, por repentina, deixa-nos todos à procura do sentimento certo e da palavra correcta.
Dado o «tremendismo» do senhor, escudam-se as vozes no perfil académico, no percurso cívico do serviço à democracia e ao Estado, na competência técnica. É seguro e cai bem.
Esquecem-se as inconveniências de quem nunca cedeu ao politicamente correcto, deixam-se no esquecimento as deambulações partidárias (ou a independência ao serviço de?), ignoram-se a inflexibilidade, o mau feitio e o culto do rancor de que, tão frequentemente, o acusavam os «sobreviventes» habituais da nossa arena política, especialistas na pirueta do oportunismo militante. Percebe-se esta atitude, dada a santidade instantânea que a morte confere aqueles que, em vida, nunca abdicaram de si.
Morreu Sousa Franco, paz à sua alma, condolências à sua família e a este país, a quem Homens assim fazem falta, militem em que partido for, porque já não sobram muitos da mesma estirpe, e todos são poucos para nos tirar da mediocridade e do marasmo.
Esteve muito bem Durão Barroso, que evocou o valor da vida; e Deus Pinheiro, que chorou o homem e o amigo.
Partilhemos, com eles e com todos os outros, o choque e a fúria desta perda, mas não esqueçamos Sousa Franco, com o bom e o menos bom de si que teve a coragem de partilhar connosco.
Santificá-lo, adoçar-lhe os traços, será uma forma de lhe diminuir o valor; e ele não gostaria, por não lhe estar na natureza.

Friday, June 04, 2004

Let me stop here. Let me, too, look at nature awhile.
The brilliant blue of the morning sea, of the cloudless sky,
the shore yellow; all lovely,
all bathed in light

Let me stand here. And let me pretend I see all this
(I actually did see it for a minute when I first stopped)
and not my usual day-dreams here too,
my memories, those sensual images.
Constantine P. Cavafy

Thursday, June 03, 2004

A propósito da divergência (?) de opiniões entre os Ministros da Saúde e das Finanças…
Hum, não me parece que esteja a começar bem, para o tipo de abordagem que pretendo fazer!
Recomeçando:
A propósito da divergência (?) de opiniões entre as Ministras da Saúde e das Finanças…
Ai, que continua a não me parecer bem, isto porque (se os tivesse) os leitores berrariam que, sendo o Ministro da Saúde homem, a nossa (mal) amada língua materna não suporta «este formato»!
Recomecemos, pois, de uma outra forma:
A propósito da divergência (?) de opiniões entre o Ministro da Saúde e a Ministra das Finanças…
Alto, que assim teremos os cavalheirescos espécimes do nosso conservador burgo a murmurar que, etiqueta dixit (e, já agora, hierarquia do governo manda!): primeiro as senhoras.
Retornemos, portanto, ao início, colocando a senhora no lugar que lhe pertence:
A propósito da divergência (?) de opiniões entre a Ministra das Finanças e o Ministro da Saúde.
Credo, que as cultivadoras da questão do género, habitualmente borrifando-se para as hierarquias, governamentais e outras, clamariam que chega de atitudes discriminatórias (ainda mais, neste caso, pela positiva) contra a mulher!
Bem, vamos a uma solução de compromisso:
A propósito da divergência (?) de opiniões entre os responsáveis pelos Ministérios da Saúde e das Finanças…
Bolas, não acerto uma e ainda por cima esqueci-me do que pretendia escrever!

Wednesday, June 02, 2004

«only you are still around»

We hold it against you that you survived.
People better than you are dead,
but you still punch the clock.
Your body has wizened but has not bled

its substance out on the killing floor
or flatlined in intensive care
or vanished after school
or stepped off the ledge in despair.

Of all those you started with,
only you are still around;
only you have not been listed with
the defeated and the drowned.

So how could you ever win our respect?--
you, who had the sense to duck,
you, with your strength almost intact
and all your good luck.



From The Long Meadow by Vijay Seshadri.